Nem sempre é fácil decidir como conduzir estas linhas, e falar das Aparições da Asseiceira, agora quase esquecidas, é um perfeito exemplo disso mesmo. Isto, porque falar de aparições marianas em Portugal é, hoje, falar quase e exclusivamente de Fátima. Se se acredita que a santa mãe de Cristo até pode ter aparecido em outros locais (como a Peninha), ou salvo a vida de diversas pessoas (como no potencial caso do Guincho), o século passado parece ter feito do caso da Nossa Senhora de Fátima o grande exemplo de aparição nacional… e para isso, foi necessário também deixar cair pelo caminho diversas outras aparições. A de hoje tomou lugar na Asseiceira, no município de Rio Maior.

Sobre estas Aparições da Asseiceira, diz-se então que Carlos Alberto da Silva Delgado (visível na imagem acima), na altura com 11 anos de idade, foi aconselhado por uma professora a rezar para ter melhores notas. Quando, a 16 de Maio de 1954, o fez próximo de um loureiro, com intenção de evitar a galhofa dos colegas, apareceu-lhe Nossa Senhora.
Esta aparição da Virgem começou, segundo ainda se sabe, por dizer a Carlos Delgado “Não fujas, eu sou a Mãe do Redentor”, revelando-lhe depois que ia ter boas notas no exame vindouro (algo que, aparentemente, se cumpriu – mas a história não preserva a nota), pedindo-lhe que se rezasse mais o terço, se cumprissem os Dez Mandamentos, e que ele voltasse ao local no mês seguinte. O menino parece ter repetido a sua presença por nove vezes, talvez até à data de 16 de Janeiro de 1955, mas nada mais conseguimos descobrir sobre o aconteceu, salvo uma curiosa excepção – o livro As Aparições da Asseiceira, compilado por um tal Fernando António, foi proibido nos tempos de Salazar. Consultando alguns registos, parece ter sido o único livro sobre uma aparição nacional vítima dessa censura, e ainde hoje é difícil de encontrar – mas até o conseguimos encontrar, para este artigo, e ele somente preserva alguns artigos de jornal da época, relativos ao período até à suposta terceira aparição.
O que mais aconteceu, portanto, nestas Aparições da Asseiceira? Não sabemos, mas pelo menos algumas pessoas que foram visitando o local naquele período de nove meses disseram ter presenciado alguma espécie de milagres, e o livro As Aparições da Asseiceira refere, de forma muito breve, pelo menos três pessoas que parecem ter sido curadas por milagre. Terá sido verdade? Fruto da censura da época, quase nada é agora possível encontrar sobre o tema, com o livro a mencionar, uma e outra vez, que o rapaz ia ser sujeito a exames psiquiátricos no futuro.
Não conseguimos encontrar, de forma fidedigna, o que mais teve lugar na época. Foi, posteriormente, construído um pequeno santuário no local, que ainda pode ser visitado nos nossos dias, como se vê acima, e onde ainda hoje se realizam celebrações religiosas, especialmente no dia 16 de cada mês, segundo foi possível apurar no Facebook oficial.
E quanto ao tal Carlos Alberto da Silva Delgado, o que é feito dele? Segundo também nos foi possível apurar, faleceu aos 37 anos, vítima de um acidente de automóvel. Em sua memória, duas pequenas fotografias ainda podem ser encontradas próximas do próprio altar da Nossa Senhora do Rosário da Asseiceira, relembrando também este jovem escolhido para transmitir uma mensagem divina – um lembrete de que, mesmo longe dos grandes santuários, há por todo o nosso país outras pequenas colinas e árvores antigas onde alguém, um dia, jurou ter visto a Mãe do Redentor. Se foi verdade, ou mera imaginação pessoal, já não o saberemos…


!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos-300x199.jpg)



Este caso da Asseiceira está incluído no lote das alegadas “aparições marianas” depois de 1917 e que o Vaticano não aprovou e que constam do meu livro “As outras Fátimas” (Manuscrito 2021). O repertório “aparicional mariano” é porém muito mais vasto e os seus registos nacionais remonta à Idade Média sendo o registo mais completo a obra de Frei Agostinho de Santa Maria, em 12 tomos, publicada no início do século XVIII. Dele retirei meia centena de casos onde se refere contacto com entidades luminosas e não apenas o achado de imagens escondidas em pedras e árvores, o tradicional “locus” das mesmas e que originaram os sequentes cultos populares.
Joaquim Fernandes
Caro Joaquim, muito obrigado pelo comentário. De facto, o chamado ‘Santuário Mariano’ é uma obra fascinante, que nunca lemos do início ao fim – os tais 12 volumes são, de facto, obra – mas fica prometido que leremos a sua um dia destes, e se gostarmos até falaremos dela por cá!