Anta parece ser uma daquelas palavras que tem significado diferente em Português de Portugal e do Brasil. Para nós, deste lado do Oceano Atlântico, uma “anta” é um monumento megalítico, como o de Adrenunes, em Sintra. No entanto, no Brasil ela é essencialmente um animal, aquele a que aqui nós vulgarmente damos o nome de tapir, e que pode ser visto na imagem abaixo.

Dada esta breve introdução, somos então levados à povoção de Anta Gorda, no estado brasileiro de Rio Grande do Sul. Existe nessa localidade uma estátua de uma grande anta – referindo-se aqui, como é natural, ao animal – que deu o nome à povoação, e que até nos pode relembrar a nossa Porca de Murça. Segundo a lenda local, o município tem esse nome porque no tempo dos seus primeiros colonos aí existia uma Anta Gorda, talvez com os 200 ou 300 Kg que a espécie pode alcançar. Ela acabou por ser morta em inícios do século XX, talvez por causar muitos problemas, e em sua memória o sítio onde foi encontrada passou a chamar-se Local ou Passo da Anta Gorda, que posteriormente veio a ter o seu nome simplificado para o actual, como também aconteceu com muitas outras terras aqui em Portugal.
A lenda da Anta Gorda é, assim, um curioso exemplo de como o imaginário popular dá vida e permanência ao que a natureza oferece. O animal, transformado em símbolo (mas que, curiosamente, não aparece no brasão local), acabou por marcar a identidade de uma comunidade inteira, atravessando gerações e fronteiras de significado. Tal como as nossas antas de pedra guardam segredos de tempos remotos, também esta anta de carne e osso se tornou guardiã de uma memória – a de um Brasil ainda selvagem, onde a lenda e a realidade se confundem na mesma paisagem.
!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos-300x199.jpg)




