Nathaniel Stedman Godfrey não é, de todo, uma figura muito conhecida nos nossos dias. Bastará dizer, por exemplo, que à data de escrita nestas linhas o seu nome nem parece surgir numa popular enciclopédia online. Mas, em outros tempos, de meados do século XIX – o livro ao qual dedicamos as linhas de hoje data de 1853 – ele conduziu uma experiência muito curiosa. Não é tão estranha como, por exemplo, as de Giovanni Aldini, mas dá que pensar, em particular em relação às crenças religiosas e místicas existentes na sua época.
Já aqui falámos sobre a origem do Espiritismo, e se este era ou não verdade para autores como Houdini, mas por muitas provas em contrário que até pudessem existir no seu tempo, este reverendo decidiu ainda tentar uma experiência muito inesperada.

Conforme nos conta na sua obra de título Table-Turning, the Devil’s Modern Master-Piece, este Reverendo Godfrey decidiu, como muitas outras pessoas no seu tempo, colocar questões aos alegados espíritos por intermédio de uma mesa. O livro apresenta-nos muitas das suas questões, no geral relativamente simples, e às tantas apercebeu-se de algumas claras inverdades. Perguntou, então, aos espíritos se estes lhes estavam a mentir, e eles admitiram-lhe que sim, não se coibindo de confessar dezenas de mentiras… e isto poderia levantar algumas questões filosóficas bastante interessantes, mas infelizmente o livro não se dedica a elas.
Em vez disso, numa sessão posterior, em vez de prosseguir esse tema, o mesmo autor e os seus companheiros decidiram tentar algo de diferente. Ele notou, quase por acaso, que quando colocava uma Bíblia na mesa, os espíritos deixavam de conseguir exprimir-se por intermédio da mesma. Por exemplo, em determinada altura pediu-lhes que contassem até 100 (por intermédio de repetidos batuques com os pés da mesa), e essa contagem seguia sempre de uma forma ritmada até ele colocar este livro – ou um pequeno papel com o nome de Cristo, virado para baixo – na mesa… e a contagem parava, e nunca continuava até ele o levantar. E então, ele decidiu perguntar aos espíritos se somente conseguiam mover as tais mesas por meio do poder do Diabo, tendo eles admitido que sim, e… o Senhor Godfrey acreditou completamente nessa informação e em outras dadas na mesma altura, como nos conta no decurso da sua obra!
De um ponto de vista filosófico, este é claramente um tema que daria imenso pano para mangas, e ele também aparece nas obras de Allan Kardec, mais ou menos na mesma época histórica. Alerta-se, repetidamente, nas obras de diversos autores sobre uma necessidade de ter muito cuidado com os tais espíritos, fala-se das inverdades dos mesmos, mas os autores em questão também acreditam na verdade do que lhes é dito quando isso lhes é conveniente. Portanto, como seria suposto às pessoas saberem quando é que os espíritos falavam verdade, e quando mentiam…?
Questões como esta, entre muitas outras, mostram bem as ambiguidades do Espiritismo no século XIX – entre crença, dúvida e a constante busca por sinais do divino, do demoníaco, ou de algo mais. Por isso, é uma resposta que fica para os leitores pensarem…
!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin "O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos.jpg)




