Há já algumas semanas que nos vieram colocar uma pergunta, “Qual a diferença entre uma dríade e uma sereia?”. Porém, mais do que simplesmente lhe respondermos de uma forma muito rápida, apontando exclusivamente as definições de ambas num qualquer dicionário, achámos que poderíamos escrever um pouco mais sobre todo o grande tema por detrás dessa questão.
Essencialmente, os Gregos acreditavam em deuses (como Zeus, Hera, Apolo, etc.) e em heróis (como Hércules, Aquiles, Heitor, etc.), ou seja, em figuras divinas, e em figuras humanas que, face aos seus bons actos em vida, poderiam depois vir a ser deificadas. Contudo, se a maior parte dos leitores até saberá disto, estas mesmas afirmações também são muito redutoras da realidade, na medida em que os Gregos também acreditavam numa terceira categoria de seres, que não são completamente divinos mas que também não são humanos – como Marciano Capela, talvez também nós lhes possamos chamar longaevi.
E que seres são esses? São criaturas como as Sereias, Dríades, Faunos (divindades dos campos), Sátiros, etc. Em comum, todas elas têm o facto de não serem nem puramente humanas, nem completamente divinas. Viviam muito tempo mas não era imortais, e normalmente tinham uma forma que as colocava entre os humanos e os animais. Isso é particularmente fácil de notar no caso dos Sátiros, que tinham pernas de cabra e cornos mas uma forma essencialmente humana:

Além destas criaturas existiam também as Ninfas, colectivamente divindades dos rios, montes, florestas e outros locais semelhantes. Porém, mediante a sua função obtinham nomes diferentes – Bacantes (enquanto ninfas, acompanhavam Baco nas suas viagens), Dríades (protegiam as árvores e florestas), Hamadríades (uma espécie de alma das próprias árvores), Lâmpades (viviam no submundo), Naíades (ou naíadas, associadas aos rios e fontes), Nereidas (do mar), Oceânides (das águas), Oréades (das montanhas e grutas), entre muitas outras – delas poderia dizer-se que todas são ninfas, mas não seria correcto dizer que uma ninfa é necessariamente uma Lâmpade. Por exemplo, Calipso, que durante anos prendeu Ulisses nos seus braços, é chamada uma ninfa, mas Dodona (que levou ao nome da cidade onde existia uma oráculo de Zeus) era considerada uma oceânide.
Onde entram então as sereias, que não devem ser confundidas com as Sirenas? Quase que em lado nenhum – são quase sempre consideradas como criaturas mitológicas completamente distintas das anteriores, meros monstros. Se quiséssemos, como na pergunta que nos foi feita, distingui-las especificamente das Dríades, poderíamos dizer que até vivem em reinos totalmente distintos – enquanto que as Sereias (originalmente) tinham um corpo de pássaro e tocavam música, as Dríades limitavam-se a viver nas florestas, em que protegiam os espaços verdes aí existentes.
Mas, para terminar estas linhas, é necessário deixar claro um elemento importante – estas categorizações não eram totalmente fixas. Nunca parece ter sido sistematizado que a figura X era sempre uma oceânide enquanto que a Y era sempre e somente uma ninfa. De igual forma, ao falar-se de uma bacante não se está obrigatoriamente a falar de alguém que não é um ser humano – poderá estar a referir-se, exclusivamente, uma companheira do deus Baco; ainda, os diversos autores que nos chegaram poderão, referindo uma mesma figura, por vezes chamar-lhe “ninfa”, outras vezes “oceânide” ou “naíade”, sem que isso seja considerado errado.

!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin O Cavaleiro Que Fazia Falar As Vaginas E Os Rabos](https://www.mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/07/o-cavaleiro-que-fazia-falar-as-vaginas-e-os-rabos-300x199.jpg)





Li o texto com proveito, como a outros deste excelente blogue. Se me permite trazer-lhe uma dúvida:
Conhece alguma referência de uma dríade flechando um fauno ou sátiro que a vinha perseguindo? Estou a buscá-la para uma pesquisa pessoal, até aqui sem sucesso, e, se me pudesse dar algum informe a respeito, ser-me-ia de imensa valia.
Muito grato desde já.
Obrigado pelo comentário, e por nos ir lendo! 🙂
Sobre a questão que colocou… é uma boa questão! O grande problema para encontrar esse possível mito é que, normalmente, as Ninfas são seres quase passivos. Mesmo quando são aproximadas por um deus que as quer possuir, limitam-se a fugir e pouco mais. Não são seres guerreiros. E isto levanta algumas possibilidades.
É certamente possível que tenham existido vasos gregos com uma cena como essa. Mas ou não representavam algum mito específico, ou provinham dos chamados “dramas satíricos”, em que essas criaturas tinham, frequentemente, um papel principal.
Outra alternativa é que o elemento feminino não seja uma Ninfa, ou uma Dríade, mas sim uma companheira da deusa Artémis. Já essas tinham por hábito portar um arco e flechas com elas, e eram virgens, o que explicaria o porquê de fugirem dos sempre-sexuais Sátiros.
Será que ouvi, ou viu, essa cena em algum lado? Se tivermos informação mais concreta podemos tentar ajudar…
Gratíssimo pela atenciosa e interessante resposta.
O que me suscitou a questão foi um delicado problema interpretativo dum soneto de Camões; mas explicar a coisa me tomaria obra de 7 mil caracteres ou mais, e não é de bom alvitre andar a gente macerando os outros com estiradas considerações filológicas e exegéticas. Se, contudo, tiver interesse em ler minha longa exposição do problema, faço-lha com muito gosto. Neste caso, peço que me deixe o seu e-mail ou entre em contato pelo meu, como preferir: [email protected]
Um abraço.
Não conseguimos encontrar esse soneto, será que é um que começa com o verso “Num bosque que das Ninfas se habitava”?
E quanto ao resto, se for mesmo preciso um dos nossos e-mails está ali em cima…
O soneto é “Náiades, vós, que as setas atirais”. Felizmente, a resposta não vai precisar ser assim tão estirada, afinal, porque vim a descartar em definitivo a hipótese de haver aí quaisquer faunos. Dado que, no 6.° verso, o texto reconstituído pelo filólogo italiano Maurizio Perugi diz “subjectivos cervos” em lugar de, como consta na vulgata, “fugitivos cervos” (“subjetivos” está basicamente no sentido de “submetidos”), e visto que, assim, os cervos em questão não necessariamente iam em fuga, afigurou-se-me que Camões podia talvez estar a aludir a atrevidos faunos (os quais, segundo algumas fontes — que V., com mais idoneidade que eu, poderá convalidar ou invalidar —, possuem características, nem sempre de bode, às vezes também de cervos, como galhadas em vez de cornos caprinos). Mas não há de ser nada disso; aquela minha fugaz impressão agora me parece absolutamente falsa. Com certeza trata-se mesmo de cervos pura e simplesmente (embora servindo o sintagma “subjectivos cervos”, na minha leitura, para conotar o sujeito poético derrotado pela amada, não havendo de ser à toa nem o “subjectivos”, somando-se ao sentido de “submetidos” o de “pertencente ao sujeito”, nem o “cervos”, com a homonímia de “servos”, em possível alusão à figura submissa do “servidor” ou “criado”, como se chamava no Medievo e ainda no Renascimento o amante ou cortejador da “Senhora”).
Não deve deixar dúvida uma pesquisa pelas ocorrências da palavra “cervo(s”) na obra de Camões: são quase quinze, todas, sem exceção, referentes ao cervo como objeto de caça. No soneto “Enquanto Febo os montes acendia”, por exemplo, temos a deusa Diana a caçar cervos com redes. Mas mais interessante ao nosso propósito é a seguinte passagem da écloga “Que grande variedade vão fazendo”: “Os Faunos, certa guarda dos pastores, | já não seguem as Ninfas na espessura, | nem as Ninfas aos cervos dão trabalho. | Tudo, qual vês, é cheio de tristura”. Não tem cabimento, a meu ver (o meu ver de hoje, não sei o de dois dias atrás…), interpretar aí “cervos” como aqueles mesmos faunos do primeiro verso citado; não dá a entender isso a estrutura do período. Por certo o texto quer dizer que nem os faunos caçavam ninfas nem as ninfas caçavam cervos. Além do mais, o próprio Camões, no 2.° verso da écloga “As doces cantilenas que cantavam”, classifica os faunos de “semicapros”, deixando claro entroncá-los na família dos caprinos, não na dos cervos.
Contudo, o trecho citado de “Que grande variedade vão fazendo” suscita um outro problema de teor mitológico, e na verdade é por causa disto principalmente que eu trouxe a citação à baila. A estar correta a minha interpretação acima — e não vejo aí controvérsia —, Camões apresenta-nos mais uma vez, tal como no soneto “Náiades, vós, que as setas atirais”, a figura da ninfa silvestre à caça de cervos. Como observou V., que nessas coisas fala com muito mais propriedade que eu, as ninfas são seres quase sempre passivos. Porém, nas duas passagens camonianas em questão (“nem as Ninfas aos cervos dão trabalho” e “Dríades, vós, que as setas atirais, | os subjectivos cervos derribando”), algum fundamento há de ter tido o nosso Poeta, não? E além dele, já agora baixando a fasquia artística, incontáveis referências de RPG — verificáveis mediante uma pesquisa no Google Images por “dríade” + “caçadora” ou “dryad” + “hunter”, que dá mil desenhos de dríades arqueiras. Ou não — não há fundamento, tratando-se mesmo de deturpação ou contaminação mitológica? Deixo a pergunta no ar, sem importuná-lo com a cobrança de uma resposta, apenas agradecendo-lhe a gentil atenção que V. me concedeu.
Um abraço de um admirativo leitor brasileiro.
Fomos ler o poema (estranhamente, ele não aparece na edição dos sonetos de Camões que consultámos antes) e, na verdade, não há razão para crer que ele se estivesse a referir a um mito em concreto. A descrição das Náiades, Dríades e Ninfas é aí muito geral; se o poeta se estivesse a referir a um mito específico, é provável que tivesse associado um nome a alguma das personagens, o que não acontece aqui. Em vez disso, está é a mencionar essas figuras de uma forma geral, talvez pelas características (poéticas?) com que eram conhecidas no seu tempo, mais do que em tempos da Antiguidade.
Ah, e sim, pensamos que o poema se refere a cervos (ou veados, como é mais comum em Portugal), no sentido real, do que a uma referência a outras criaturas mitológicas. Caso contrário, porque é que o poeta diria ‘cervos’ em vez de ‘faunos’? Não há, que saibamos, qualquer tradição de se caçarem Faunos ou Sátiros. Eles são perseguidores de donzelas indefesas, mais do que perseguidos por alguém.
Mas então, de onde vem a ideia desses seres usarem arcos e flechas? Não deverá ser uma “deturpação ou contaminação”, mas sim uma inferência que parte das histórias mitológicas – se esses seres viviam nas florestas, e em muitos casos protegiam as árvores (o que descarta a ideia de que pudessem comer frutos), de que se podiam elas alimentar senão pela caça? Ou, indo pela ideia da contaminação, podiam associar-se essas figuras às seguidores da deusa Diana, que também caçavam pelas florestas…
Ao mesmo tempo, os jogos de computador tendem a readaptar muitas figuras mitológicas, como é o caso das “ninfas do fogo”, de que cá foi falado há já uns anos. Aí, é mesmo uma questão de tornar o jogo mais interessante, até porque provavelmente poucos quereriam jogar uma aventura em que têm de derrotar 500 ninfas; a bem da variedade, vão-se introduzindo ninfas voadoras, do fogo, com seis braços, “ninfos”, centauros voadores, e outras coisas que tais…!