Uns versos gregos entregues a Dom Sebastião

O tema de hoje, de uns versos gregos que outrora foram entregues ao rei Dom Sebastião, têm uma breve história por detrás deles. Eles encontram-se atestados entre as muitas anedotas – no sentido de breves histórias – da história de Portugal encontradas em diversos manuscritos do nosso país, e que neste caso em particular foram coligidas pelo Professor José Hermano Saraiva. Segundo a fonte em questão, os versos abaixo foram encontrados em Grego num monte da ilha do Chipre e depois enviados para Dom João III, cuja esposa posteriormente os entregou ao nosso “Desejado“. Eles continham as seguintes palavras, uma espécie de recomendação que o falecido deixava àqueles que vieram depois dele:

— O que pude fazer por bem, nunca o fiz por mal;
— O que pude alcançar com paz, nunca o tomei com guerra;
— O que pude vencer com rogos, nunca o espantei com ameaças;
— O que pude remediar em segredo, nunca o castiguei em público;
— Os que pude emendar com avisos, nunca os castiguei com açoites;
— Nunca castiguei em público, o que primeiro não avisasse em segredo;
— Nunca consenti à minha língua que dissesse mentira; 
— Nunca permiti a meus ouvidos que ouvissem lisonjeios;
— Refreei meu coração, para que não desejasse o alheio, e acabei com ele que se contentasse com o seu próprio;
— Velei por conservar os meus amigos, e desvelei-me por não ter inimigos;
— Não fui pródigo em gastar, nem tive cobiça em receber;
— Nunca de coisa fiz castigo, q não perdoasse quatro;
— Do que castiguei tenho paixão, e do q perdoei alegria;
— Nasci homem entre os Homens, portanto comem os bichos as minhas carnes;
— Vivi virtuoso com os virtuosos, portanto descansará a minha alma com Deus.

Parecem palavras que continuam a ser apropriadas para estes dias de hoje, sobre a forma como todos nós devíamos viver as nossas vidas…

“Tsurezuregusa”, de Yoshida Kenko

Não é fácil traduzir Tsurezuregusa do seu original japonês, mas poderá ser algo como “Reflexões do Ócio”. Trata-se de um livro escrito por Yoshida Kenko, que após uma vida secular no Japão do século XIV, se tornou um eremita budista. E então, nessa sua nova vida, este homem decidiu anotar o que lhe ia passando pela cabeça, numa obra que ainda hoje é estudada pelos alunos no Japão. É um texto provavelmente tão actual hoje como nos instantes em que foi sendo escrito, preservando não só algumas histórias breves, mas também diversos pensamentos filosóficos. Assim, decidimos deixar por cá dois momentos da obra, sugerindo aos leitores alguma reflexão, até porque a quadra natalícia já se aproxima:

 

Na província de Inaba vivia uma rapariga, filha de um certo sacerdote leigo de família nobre, cuja mão era pedida em casamento por muitos que tinham ouvido falar da sua enorme beleza. Contudo, esta rapariga não comia senão castanhas, recusando-se a tocar em arroz ou qualquer outro tipo de grão; por isso, os seus pais recusaram todos os seus pretendentes, dizendo que um hábito tão invulgar nunca devia ser mostrado aos outros.

 

Acautela-te de adiar a prática da religião até à velhice. As antigas sepulturas pertencem, na sua maioria, àqueles que morreram jovens. Só quando o homem é de súbito abatido pela doença e sente próxima a morte é que reconhece os erros da sua vida passada. E que erros são esses?

Nada mais do que adiar o que deveria ser feito sem demora, e apressar o que deveria ser levado com calma – causa de grande arrependimento quando o passado já não pode ser mudado. Quando chega a sua hora, de que lhe servirá então o arrependimento?

O nosso coração deve manter-se firmemente consciente da proximidade da morte, que jamais devemos esquecer, nem por um instante. Assim, ficaremos menos manchados pela contaminação deste mundo, e o nosso espírito será sincero na observância do caminho de Buda.

Um dos santos antigos (…), quando as pessoas vinham falar-lhe de negócios, costumava dizer-lhes:
“Tenho diante de mim uma tarefa premente. O meu tempo está próximo.”
E, tapando os ouvidos, continuava as suas preces – até ao dia em que, dessa forma, passou deste mundo.

Outro sábio, de nome Shinkai, tão profundamente impressionado pela fugacidade desta vida, jamais se sentava comodamente: permanecia sempre de cócoras, em atitude de vigilância e atenção.

 

As palavras de Yoshida Kenko lembram-nos que, mesmo em tempos e lugares distantes, o ser humano permanece o mesmo na sua busca por sentido. Entre o humor discreto da rapariga das castanhas e a gravidade serena da reflexão sobre a morte, Tsurezuregusa convida-nos a olhar para a vida com atenção e simplicidade. Talvez seja esse o verdadeiro ensinamento do “ócio” de Kenko – o de parar um instante, observar o que nos rodeia e reconhecer, com humildade, a beleza efémera de todas as coisas neste mundo.

As Viagens de Marco Polo – entre o mito e a realidade

O livro das Viagens de Marco Polo é daquelas obras que, apesar da sua enorme importância cultural, esquecemos ao longo dos anos. Acontece (!), nem sempre é possível reler e apresentar por aqui todas as grandes obras  que foram mudando o nosso mundo, apesar de esta já aqui ter sido mencionada antes, por exemplo, em relação ao destino final dos três Reis Magos ou ao segredo do Unicórnio. Esta é, sem qualquer dúvida, uma obra que já foi muitíssimo famosa, mas será que ainda tem alguma importância para os dias de hoje? Foi precisamente para tentar responder a isso que nos dedicámos à sua releitura.

As Viagens de Marco Polo

Esta obra das Viagens de Marco Polo pode, na sua essência e para estas nossas linhas, ser dividida em cinco partes, que não são as originais. A primeira delas apresenta, de uma forma breve, a figura do viajante – não foi apenas ele o autor da obra, mas foi ele que a ditou a um Rustichello da Pisa, quando ambos estavam presos – e a forma como ele teve acesso a tudo o que conta no decorrer do texto. É, verdadeiramente, um prefácio essencial para que se possa compreender o contexto de toda a obra.

 

A segunda parte explica como é que este Marco Polo se dirigiu para a corte de Kublai Khan, em meados do século XIII, e vai contando o que este homem foi vendo pelo caminho. A essa se segue uma terceira parte, na qual nos são contadas as desventuras deste homem em terras da China, tanto ao nível de viagens físicas como da cultura local, preservando esta obra, por exemplo, aquela que parece ser uma das mais antigas referências ocidentais ao “dinheiro em papel” chinês. Essas “notas”, como lhes chamamos hoje, só viriam a ser implementadas na Europa centenas de anos mais tarde!

 

A quarta parte conta-nos um pouco das suas viagens nas ilhas de um contexto asiático, nomeadamente o que viu em terras de Zipango / Cipango, o actual Japão. E, para terminar, uma quinta e última parte refere, de uma forma mais breve, alguns dos confrontos em que o país de Kublai Khan se encontrou envolvido.

 

 

No decurso de todos esses capítulos, Marco Polo e o autor que se lhe encontra bem associado vão contando ao leitor todo um conjunto de coisas que o primeiro diz ter visto, e que vão desde tradições locais, até a descrições geográficas, passando por coisas que, na época, poderiam parecer completa fantasia. Seriam verdade? Ou, perguntando melhor, terão sido elas verdade? Se muitos dos capítulos da obra, quando colocados em contexto, poderiam soar a falso, hoje já podemos afirmar que a maior parte da obra tem um conteúdo bem real, falando-nos de coisas que Polo só poderia ter sabido ao viajar, de facto, pelos locais que diz que visitou. E, de facto, até existe uma espécie de lenda italiana que diz que os familiares deste viajante lhe pediram, quando estava prestes a falecer, que lhes contasse a verdade, que dissesse que as famosas viagens eram mentira… ao que ele respondeu que não só contou a verdade, como nem chegou a contar metade do que viu!

 

 

Por toda esta informação poderíamos supor que as Viagens de Marco Polo foram uma obra maçuda, com dezenas e dezenas de páginas de descrições que já pouco ou nada nos importam, mas o que elas têm de interessante passa pelo facto de ele nos dar, em alguns casos, informação que pode ser verificada como real. Ele fala de uma guerreira de nome Khtulun, uma espécie de Atalanta medieval, que defrontava os homens que queriam casar com ela, mas que ela insistia em vencer – e, contrariamente à heroína dos Gregos, nunca parece ter sido vencida nesse combate. Ou fala de um suposto túmulo de São Tomé na Índia – é hoje a Basílica de São Tomé, em Chenai. Ao mesmo tempo, aqui e ali relata algumas coisas que não parecem ser reais, como a existência de duas ilhas, uma populada só por mulheres e outra só por homens, que lá tinham as suas interacções ocasionais.

 

 

O que dizer, então, destas Viagens de Marco Polo? Será que é uma obra que ainda merece ser lida, mais de setecentos anos após a sua escrita? Como no caso da famosa obra de Galileu, tudo depende do leitor, e do seu potencial interesse em conhecer textos que mudaram o mundo. Este não é, admita-se, um livro que mude a vida do seu leitor, nem um Consolo da Filosofia, mas é interessante na medida que permite ter acesso a um mundo que, para nós e na Idade Média, estava completamente oculto nas trevas. Se lido numa edição com bons comentários, o leitor até pode comparar a “ficção” com a realidade, tornando-lhe possível conhecer um pouco melhor este nosso mundo. Não é essa uma cultura geral, e uma diversidade de ideias, que hoje muito se prega?

As Cantigas de Santa Maria, agora em Português de Portugal!

Quase que nos esquecíamos disto, mas as famosas Cantigas de Santa Maria, da Idade Média, existem agora e finalmente em Português! Quem tiver interesse nesta obra completamente única, pode adquirir uma versão digital ou uma versão física, na Amazon e em muitos outros locais, nomeadamente através do ISBN 979-8290724102.

As Cantigas de Santa Maria em Português de Portugal

Já há alguns anos aqui apresentámos uma tradução portuguesa de uma das cantigas, a décima, mas neste caso em particular é tão importa explicar o que é esta obra, como a própria história desta sua tradução para a língua portuguesa.

 

 

Essencialmente, as Cantigas de Santa Maria são uma obra que data do reinado de Afonso X de Castela (ou seja, do século XIII), e que compila aproximadamente 420 poemas relacionados com a Virgem Maria. Não se tem a completa certeza dos seus autores, mas é provável que alguns deles tenham sido da autoria do próprio monarca castelhano. Quanto aos temas, eles vão de simples hinos laudatórios (como o já apresentado no link acima), a histórias de milagres realizados pela mãe de Jesus Cristo, incluindo algumas sequências que supostamente tiveram lugar nas nossas terras de Portugal. Mas… a obra não é só isso, e um dos seus aspectos mais significativos é que estes poemas foram preservados em manuscritos com a música original. Nesse sentido, hoje qualquer pessoa pode localizar o número de uma das cantigas (como a centésima), e através de uma pesquisa em plataformas como o Youtube encontrar a versão cantada, muitas vezes até com uma breve tradução do original:

 

 

Esta é, portanto e sem qualquer dúvida, uma tradução de interesse cultural muito significativo, mas a que se deveu a sua existência?

 

Bem… esta tradução das Cantigas de Santa Maria tem, na verdade, uma verdadeira história por detrás. Há muitos anos atrás, um colega obteve um manuscrito desta obra e doou-o a um mosteiro local. As freiras ficaram felicíssimas com a oferta, mas depressa se depararam com um problema – não conseguiam ler a língua original, nem encontraram qualquer tradução que lhes fosse legível.

 

Os anos foram passando, até que em dada altura esse colega teve um grave problema e as mesmas freiras foram das poucas pessoas que lhe mostraram qualquer espécie de compaixão pela situação. E, por isso, ele acabou por decidir dar-lhes algo como nunca tivessem visto antes. Para tal, produziu esta obra e ofereceu-a ao mosteiro, sob condição da sua identidade nunca ser revelada a ninguém.

 

E, finalmente, foi decidido que esta obra também poderia vir a público, para benefício de todos aqueles que a queiram ler, com a grande dificuldade de publicação a se dever à sua extensão – é um calhamaço de mais de seiscentas páginas, mas que só faria sentido publicar num único volume.

 

 

Foi assim que nasceu esta tradução das Cantigas de Santa Maria para Português de Portugal. Espera-se que continue a encontrar leitores que apreciem a riqueza histórica e cultural do período medieval, e que estas cantigas possam encantar e inspirar todos aqueles que se interessam pela nossa herança literária e religiosa ibérica.

São Malaquias e a Profecia do Último Papa

A profecia do último papa é um tema que muitos consideram intrigante — e, com o falecimento do Papa Francisco ocorrido hoje, achámos que era apropriado abordá-lo com respeito e sobriedade. Ao longo dos anos, fomos recebendo várias perguntas sobre os contornos desta curiosa previsão atribuída a São Malaquias. Por isso, decidimos revisitá-la.

 

 

São Malaquias foi uma figura religiosa irlandesa do século XII. Apesar de não lhe serem conhecidas obras literárias com autoria indiscutível, no final do século XVI surgiu um texto que lhe foi atribuído: a Prophetia Sancti Malachiae Archiepiscopi, de Summis Pontificibus (ou, em português, A Profecia do Arcebispo São Malaquias, dos Sumos Pontífices). Essa obra apresenta uma lista de papas, começando em Celestino II, no século XII, e supostamente quase que terminando com o Papa Francisco — cada um acompanhado por um breve lema simbólico, como “Ex castro Tiberis” ou “Gloria olivae”.

 

O que torna esta lista especialmente relevante hoje é o facto de, após a referência ao Papa Francisco, aparecer uma secção final que tem sido amplamente interpretada como a profecia do último papa. Reproduzimos aqui o trecho final da obra, tal como publicada pela primeira vez em 1595:

São Malaquias e a Profecia do Último Papa

 

[…]
De labore solis.
Gloria olivae.
In psecutione. extrema S.R.E. sedebit.
Petrus Romanus, qui pascet oves in multis tribulationibus: quibus transactis civitas septicollis diruetur, & Iudex tremendus iudicabit populum suum.
Finis.

 

 

Traduzido, este trecho anuncia: “Na perseguição final da Santa Igreja Romana se sentará. Pedro Romano, que apascentará as ovelhas em muitas tribulações: após as quais a cidade das sete colinas será destruída, e o grande juiz julgará o seu povo.”

 

Este momento, associado ao juízo final, dá força à ideia de que São Malaquias teria previsto não apenas todos os papas até ao presente, mas também o derradeiro papa da história. Daí o nome com que este episódio é frequentemente conhecido: a profecia do último papa.

 

Mas será que essas últimas frases da lista – uma frase contínua, ou duas separadas por um inexplicável ponto – representam uma ou duas figuras distintas? Estão a concluir a sequência iniciada com os papas anteriores, ou são uma nota à parte, relativa apenas a um distante fim dos tempos, em que um tal Pedro Romano (ou Pedro de Roma), virá a ocupar a cadeira papal? São estas as perguntas que têm alimentado o debate em torno desta profecia.

 

 

Diz-se que São Malaquias teve uma visão mística em que lhe foram revelados todos os papas da história da Igreja — e que, por isso, a sua profecia termina apenas com o fim dessa sucessão. Se assim for, o Papa Francisco terá sido o antepenúltimo… ou mesmo o penúltimo papa, dependendo de como se lê tudo isto. Inquietante!

 

Mas será esta antiga profecia do último papa verdadeira? Ou não passará tudo de uma criação muito posterior à vida de Malaquias, de finais do século XVI, sem qualquer fundamento profético? Hoje, mais do que nunca, essa pergunta volta a ecoar. E talvez o tempo, como sempre, nos traga a resposta…